sábado, 19 de setembro de 2009

Não vás embora

Fica aqui comigo hoje, só mais esta noite.

Talvez amanhã te faça o mesmo pedido e no dia seguinte também e nos dias da próxima semana talvez insista mais uma vez. Poderei pedir a tua presença durante um mês ou só esta noite, mas hoje quero que fiques aqui, do meu lado.

Quero que ocupes o cadeirão que fica junto da minha cama. Quero olhar as nossas sombras projectadas na parede, próximas daquele relógio onde o tempo permanece estático. Quero ver-te segurar a minha mão, a olhar para o infinito, a sussurrar palavras confidentes. Como se as bonecas de porcelana, cobertas de pó, que estão em cima do armário do nosso quarto, escutassem os nossos segredos.

Suavemente, vamos fechando os olhos, as palavras vão-se arrastando. Até que no quarto, apenas, se ouvem as nossas respirações. As risadas escondidas nas almofadas são agora uma recordação.

Nesta noite em que o vento sopra forte, não deixaste que sentisse medo, quando enrolaste os teus braços à volta do meu peito fino e frio.

Talvez amanhã não seja necessário ser eu a pedir-te para ficar. Talvez amanhã sejas tu quem me pede para ficar.

Escher

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Porque é que não quebras o silêncio?

Porque é que não vejo os teus lábios serenos proclamarem uma palavra?

Porque é que continuas nesse lugar obscuro que se tornou o teu coração?
Já pensaste que lhe podes abrir uma pequena janela?

Já pensaste que fazes falta a alguém?

Sim, a tua gargalhada já se converteu numa recordação. A força do teu olhar permanece imóvel nos retratos que existem pela casa. O barulho dos teus passos escutam-se muito levemente no soalho do teu quarto. Apenas aí.

Anseio que consigas, rapidamente, abrir a porta desse teu refúgio que não te protege de nada, apenas te isola, e desças a rua. Eu estarei lá no fundo, à espera que a força do teu olhar faça desviar o meu para ir de encontro ao teu. Novamente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Retrospectiva

Quando, pelo quarto, ecoa o som de uma música que já não era escutada há algum tempo... Misteriosamente, desperta uma nostalgia que faz recordar algo que já se viveu. Então, pouso a cabeça no sofá, lentamente, sentido com atenção cada batida da música como se cada compasso fosse marcado por um momento diferente. Fecho os olhos e desligo-me da realidade. Deixo os meus pensamentos regressarem ao passado, fluindo depois para o presente. Revivo-os. Sorrio. Recordo como nesses tempos tudo era bem mais fácil...

Criança inocente, de sorriso e coração puro, de mãos dadas com a vida. Sem questionar nada, vivia na ausência de preocupações. Agora, o oposto. Contesto a minha vida, cada passo que dou ou vou dar. Depois, a longa espera... Torna-se angustiante. Os dias demoram um Inverno a passar. As horas são dias. As noites, uma tormenta. O cérebro não pára, é bombardeado com interrogações sobre um futuro indefinido. A respiração fica mais pesada. O coração é apertado por um medo inexplicável. E, nessas noites, o escuro é a única certeza. O futuro é uma certeza durante a noite, escuro. Não sei o que poderá acontecer, não há perspectivas de melhoras, mas o futuro é assim mesmo, uma descoberta. Porém, há dias em que parece risonho, brilhante e outros em que se torna uma noite fria e escura de Inverno.