quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sentidos

Não quero ouvir o ruído do rádio. Quero escutar o silêncio que se espalha pelo quarto.

Não quero ver as imagens da televisão. Quero contemplar algumas recordações que vagueiam pelo vazio. Quero guardar as cores que pertencem a este lugar.

Não quero o aroma do incenso. Quero sentir os vários odores, quero conseguir identificar cada um antes de se fundirem num só.

Não quero a ausência do toque. Quero tactear o que me rodeia. Quero ser capaz de recordar as texturas.

Não quero gozar o excesso de comida. Quero saborear as pequenas delícias que estão sobre a mesa.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Correr por aí...

Depois de tanto tempo distante, naquela tarde decidi ganhar coragem para interromper o aconchego de casa e enfrentar o frio que abundava no seu exterior. Queria ultrapassar essa barreira, mais uma vez. O caminho que muitas vezes percorri, com diferentes estados de espírito, levou-me de novo até ti. Levava no bolso da minha camisola preta um enorme entusiasmo que não cabia lá dentro. Então foi-se apoderando de mim juntamente com uma pitada de nostalgia e orgulho por regressar.
Soube a vitória entrar de novo no pavilhão, sentir o cheiro do chão molhado, tocar nas paredes amarelecidas pelo passar das épocas... Desci cada degrau olhando para tudo, verificando que ainda tudo se mantém nos mesmos lugares, tal como quando deixei de entrar ali. Ao abandonar o último degrau, encontrei-te! Continuas com o teu jeito de ser, à espera impaciente e de telemóvel na mão. Não te deixei falar, abracei-te.

O ritmo já há muito tempo que se tinha perdido. O gosto por correr à chuva não. Até tu conseguiste notar, talvez ainda surpreendida pela minha presença. Sabes o quanto sempre gostei de correr à chuva, era o meu alento junto com as nossas brincadeiras. Mais tarde, ouvia-te dizer preocupada que estava toda molhada e ia fazer-me mal. Dando o benefício da dúvida, continuava! Tocar cada gota de água enchia-me a alma e não me arrefecia o coração.

Nessa tarde, correr por aí e sentir a chuva molhar-me o rosto fez-me reviver bons velhos tempos. Correr por aí já com a respiração ofegante e mesmo assim querer continuar. Correr por aí e encontrar recordações em cada rua que ressoaram na minha mente como cada passada no alcatrão mergulhado nessa água da chuva.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Segredo a cores

Pousa a caneta pequena!


Ainda não tens pulso para a tomar. No teu horizonte só existem folhas brancas para seres tu própria a colorir. Só existem folhas sem limites, quadrículas ou linhas, para que tu possas decidir a direcção que o teu projecto em construção vai tomar.


Ajeitas as madeixas de cabelo, que te caem sobre a testa franzina, com os teus dedos pequenos e riscados. Segue-se um olhar desafiador para os lápis de cera que estão muito aconchegados uns aos outros em pequenos copos de plástico, organizados por cores. Num movimento rápido e premeditado, deixa-los à solta pelo tampo da mesa e no teu doce olhar de menina há um mini arco-íris, como se fosse o reflexo das cores espalhadas pela mesa.

Donald Zolan

Seguras um lápis, depois noutro e começas a rabiscar a folha, com medo de que as cores que ficavam marcadas no papel quisessem de novo regressar à ponta do lápis de cera. Terminas rápido o teu gatafunho e com mil cuidados, dobra-lo num pedaço muito pequeno de papel amachucado.


Sussurro-te ao ouvido para não deixares ninguém ver o teu segredo. E tu, menina conhecedora da realidade, dizes com autoridade que o teu segredo foi fechado a sete chaves e ninguém é capaz de encontrá-las mais.


Pobre pequena! Como terá ela fechado uma folha de papel à chave? Deixo-me envolver na tua inocência, entrego-te uma nova folha selada com um sorriso e fico a ver-te desenhar.